1. A Sociedade do Cansaço
Pe. José Carlos dos Santos
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Um terapeuta que atende consagrados, consagradas e presbíteros há mais de 20 anos apresentou o seguinte testemunho:
“O cansaço é um dos maiores desafios à saúde mental de presbíteros e religiosos em nossos dias. Há sobrecarga de trabalho para todos, sem exceção. Presbíteros diocesanos, em geral, assumem paróquias com demanda de trabalho impossível de ser executada satisfatoriamente. Há incessantes demandas pastorais e administrativas. Os consagrados e consagradas, por sua vez, se responsabilizam pelos trabalhos específicos do carisma e por demandas burocráticas cada vez mais exigentes e complexas. O resultado é a fragilização e o adoecimento psíquico. Pessoas constantemente fatigadas (neurastênicas) estão expostas a variados tipos de patologias, o que se percebe com frequência cada vez maior”.
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Muitas são as análises que procuram apreender o que melhor caracteriza cada período histórico-cultural . Segundo alguns, a expressão “era do vazio” é a que melhor ajuda a entender a cultura em que vivemos. Para outros, central é a ideia de consumismo, de uma atração irrefreável ou irresistível por uma infinidade de produtos que são continuamente introduzidos num mundo, que globalmente se transformou num grande shopping center. Há quem diga que narcisismo é o conceito central, ou seja, predomina atualmente a absolutização do eu ao ponto de fazer com que o outro se torne irrelevante, a menos que sua existência seja colocada em função e a serviço do narciso, que é absoluto e insaciável. A partir de Freud, o prazer foi introduzido (ou re-introduzido), como conceito chave para se compreender o indivíduo e a cultura humana . Discordando de Freud, há quem diga, ainda, que a vida humana gira em torno da luta pelo poder, que seria o princípio que nos motiva em nossas principais ações, atitudes e escolhas. Para o cristianismo o amor é a experiência necessária e central, de modo que a causa dos problemas sociais e do sofrimento humano é o seu esquecimento . Viktor Frankl, permanecendo na perspectiva cristã, afirma que o homem não é movido pelo princípio do prazer ou pela sede de poder, mas necessita de um sentido ou razão para viver.
Todas as considerações mencionadas anteriormente são válidas. São diferentes e complementares formas de compreender o homem, em sua inevitável e desafiante inserção no contexto social. Creio, contudo, que seja necessário acrescentar, ao extenso elenco de caracterizações de que dispomos, o conceito de cansaço . Mais que cansaço, vivemos no mundo da exaustão, física e psicológica. Utilizando a linguagem da antropologia, o ser humano é classificado como homo sapiens e homo faber . O que nos distingue é a capacidade de pensar, o ser racional e, consequentemente, a capacidade criativa, de imaginar uma realidade e de construí-la. O modo como utilizamos capacidades tão ricas e especiais culminou na criação de um novo tipo de homem, o homo fatigatus ou exhaustus.
Do ponto de vista físico e psicológico cansaço e fadiga não são problemas, mas experiências recorrentes e naturais. Diariamente submetemos corpo e mente a esforços necessários ao desenvolvimento das atividades que compõem a vida humana, e por consequência há tanto cansaço físico quanto mental. O cansaço chega a ser desejado, benéfico e até prazeroso. Depois de um dia de intenso trabalho, a fadiga faz com que o simples fato de nos assentarmos num sofá se torne extremamente agradável. O final de semana num sítio isolado e silencioso pode tornar-se o objeto de maior desejo de alguém que tenha uma semana intensa e exaustiva de trabalhos. Para o estudante, a possibilidade de “não fazer nada” é agradável somente enquanto necessária ao restabelecimento da normalidade do funcionamento físico e mental.
O problema não é experimentar cansaço e fadiga. Pode-se dizer, neste contexto, que a saúde mental é resultado da adequada alternância de trabalho intenso, criativo e repouso. Corpo e mente precisam ser exercitados intensa e frequentemente. Mas precisam de um adequado período para se refazerem, para o restabelecimento e recuperação da normalidade de suas funções. Duas fontes de problema são a inatividade, atividades excessivas e desestruturantes.
Pode parecer que o que se entende por burnout seja moderno. Mas não é. Em 1869 foi criado o conceito de neurastenia para diagnosticar os quadros de exaustão física e psicológica, que conduzem a um estado generalizado de astenia. A exaustão psíquica compromete globalmente o funcionamento mental, fragilizando a capacidade de pensar, o estado de humor, culminando em um funcionamento mental marcado pela irritação, fadiga, humor deprimido, e na concreta incapacidade de suportar a normalidade da vida com o seu natural desgaste. A neurastenia era um tipo de diagnóstico muito frequente no final do século XIX, e foi incluído no CID-10 pela Organização Mundial de Saúde.
O que conduz ao burnout, portanto, é um tipo de fadiga que se torna crônica. Fadiga física e psíquica. A psiquiatria apresenta como referência o período de seis meses . O cansaço não se resolve com as formas normais e disponíveis de repouso: redução ou mudança de atividades, dias de descanso ou férias, atividades recreativas etc. O comprometimento funcional é amplo e pode se tornar generalizado. Há casos em que a pessoa se torna incapaz de dar continuidade ao ritmo de trabalho ou aos estudos, e a convivência se torna muito comprometida. São fragilizadas a concentração e a memória, o sono é desregulado, dores de cabeça e pelo corpo se tornam comuns. A empatia diante de um quadro de burnout é facilitada se trouxermos à mente como nos sentimos físicamente e psicologicamente quando estamos muito cansados, e imaginamos este tipo de experiência psíquica como permanente ou crônica. Não há dúvida de que estamos diante de um tipo de transtorno mental que coloca graves desafios e dificuldades para o sujeito que dela é acometido, mas também para as ciências que se ocupam da mente humana.
2. Ponto de partida da reconstrução psicoafetiva: o conhecimento da própria estrutura mental
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O padre Y está em plena meia-idade. Foi ordenado presbítero há mais de 20 anos, e ao longo da vida vem lutando para manter-se saudável psicologicamente. Em sua história familiar há casos de ansiedade, depressão e suicídio, além de alcoolismo. Durante o período de seminário não houve manifestação de sinais ou sintomas de fragilidade estrutural. Alguns anos depois de ordenado começou a ter crises de ansiedade e acentuada insegurança no exercício do ministério. Recuperou-se depois de fazer uso de medicamentos, e de um bom período de descanso. Anos depois fragilizou-se novamente. Desta vez ficaram evidentes fortes sintomas de depressão. Teve que afastar-se do ministério para tratamento. Não muitos anos depois teve forte crise de ansiedade, que ele mesmo descreveu como sendo um “surto”, que novamente o levou a se afastar da paróquia para tratamento. Atualmente retornou ao trabalho paroquial, mas continua fazendo uso de medicamentos, e segue acompanhamento psiquiátrico com regularidade.
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A expressão estrutura mental é utilizada com relativa frequência, em diferentes contextos. Ocorre que ouçamos comentários do tipo “meu filho mais jovem tem uma estrutura frágil” ou “minha mãe tem uma estrutura muito forte, não se abala facilmente”. É fácil entender, pelas frases acima, que a palavra estrutura se refere a um tipo de organização mental, relativamente estável ao longo do tempo, que faz com a pessoa tenha maior ou menor resistência às pressões, ao peso e ao cansaço que faz parte da normalidade da vida.
A estrutura mental é resultado de longa construção. A criança não tem ainda uma estrutura mental definida, o que faz com que haja frequentes e acentuadas alterações em seu funcionamento mental. Num momento está feliz, tranquila e sorrindo. No momento seguinte poderá estar triste, extremamente ansiosa e aos prantos. Esta oscilação é resultado da fragilidade estrutural da criança, e é absolutamente normal. A criança necessita de um ambiente saudável e estruturado, para estruturar-se internamente.
Com o passar do tempo, nossos componentes internos vão se organizando. Tornamo-nos menos expostos às “tempestades” internas e externas. Desenvolvemos mecanismos defensivos contra o medo, a ansiedade, a raiva, as decepções e frustrações, e por isso nossos afetos, emoções e comportamentos passam a ter relativa estabilidade e regularidade. Como a estrutura interna é resultado, sobretudo, das experiências vividas nos primeiros anos de vida, o indivíduo adulto poderá ter uma estrutura saudável ou normal, ou uma estrutura frágil, com insuficiente capacidade de suportar o cansaço que, inevitavelmente, faz parte da vida. Quando se diz que uma pessoa é “neurótica” ou é “psicótica ou esquizofrênica”, estamos falando de diferentes níveis de organização estrutural de sua mente.
Creio que poucas coisas são tão importantes quanto o conhecimento objetivo da própria organização estrutural. A pergunta a se fazer é: qual a minha resistência às pressões, à ansiedade, ao cansaço, ao sofrimento, ao desgaste provocado pela vida? A síntese da vida do padre Y, apresentada pouco acima, nos permite concluir que se trata de alguém que tem recorrentes transtornos mentais, bem possivelmente por se tratar de uma estrutura mental frágil. O conhecimento da própria estrutura mental nos permite organizar a vida em sintonia com o que conseguimos suportar, em termos de ritmo de vida e trabalho, evitando os excessos que levariam à desorganização e ao adoecimento.
Tanto a vida consagrada quanto o ministério ordenado expõem a diferentes e intensas formas de pressão e sofrimento psíquico. A sobrecarga de trabalho e o consequente estado de fadiga estão entre os maiores desafios atualmente enfrentados por presbíteros e consagrados. Que quantidade de cansaço cada presbítero suporta? A quanto desgaste cada consagrado resiste? Quanta crítica, frustração, solidão e desamparo é possível suportar? Depende, fundamentalmente, do nível de organização estrutural de cada pessoa. Há pessoas que serão ou seriam afetadas em pouco tempo, enquanto outras pessoas poderão apresentar um nível significativamente maior de resistência.
A melhor e mais segura forma de conhecer a própria estrutura mental é a partir do que revela a história de vida, com particular atenção para os momentos mais desafiantes que foram vividos. Suponhamos que um jovem seminarista perceba que toda vez que é confrontado perde o controle emocional, ou que desenvolveu sintomas depressivos ao final do segundo período de um exigente curso de filosofia. Há casos de seminaristas que desenvolvem sintomas acentuados de ansiedade e depressão por causa do peso da rotina de seminário, como há padres jovens que se descontrolam emocionalmente por causa do cansaço e da cobrança inerentes à função de pároco.
O conhecimento da própria organização estrutural tem implicação direta na recuperação psíquica e afetiva, depois da fragilização provocada pelo burnout. O quanto haverá de alteração emocional, nos casos de burnout, pode variar, chegando ao ápice da desestruturação do funcionamento mental. Qualquer que seja o caso, a causa deste transtorno foi submeter-se a um ritmo de fadiga superior ao que a própria estrutura mental está preparada para resistir . É possível suportar um ritmo de vida com excesso de trabalho e estresse por algum tempo. Assumir semelhante ritmo de vida como algo permanente inevitavelmente conduzirá ao burnout, ou ao colapso do próprio funcionamento mental.
Recordo um jovem consagrado, que se dedicava a um apostolado exigente e muito exaustivo. Como normalmente acontece, ao ingressar na comunidade, assumiu para si o ritmo de vida dos demais membros, adotando os mesmos horários, quantidade e complexidade de tarefas, e os mesmos reduzidos períodos de descanso. Praticamente não havia tempo para atividades esportivas e para o lazer. Depois de aproximados três anos, começaram a surgir sintomas de fadiga crônica, ou burnout. Antes alegre e comunicativo, o jovem demonstrava sintomas depressivos, diminuindo, significativamente, a motivação, a alegria e o prazer na realização de suas atividades. Eram comuns as noites em que perdia o sono, ou em que o sono era insuficiente ou pouco restaurador. Mostrava-se inseguro para o desenvolvimento de suas atividades, e descontente com o resultado das iniciativas evangelizadoras que desenvolvia. Depois de um certo período de análise, reconheceu que o erro estava em assumir como critério para a organização de sua rotina de vida e trabalhos um referencial externo, em lugar de olhar para si mesmo, e para o que era capaz de fazer. Este aprendizado foi fundamental para sua recuperação psicológica e afetiva.
Creio que pessoas com todos os tipos ou níveis de organização estrutural estão aptas para viverem ativamente, e se realizarem em diferentes funções, incluindo o ministério sacerdotal ou a vida consagrada. A questão central é descobrir o quanto de peso posso suportar, e ter a humildade de respeitar a própria organização estrutural, qualquer que seja ela.
3. Identificação e tratamento dos sintomas do burnout
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Padre João é extremamente dedicado à sua paróquia. Trabalha muito e se esforça para atender as necessidades de seus paroquianos. No entanto, nos últimos meses tem se sentido cada vez mais cansado e estressado. Sente dores de cabeça frequentes, problemas para dormir e falta de energia. Apesar desses sintomas, recusa-se a admitir que está sofrendo de burnout. Não quer reconhecer que necessita de ajuda ou que precisa mudar sua rotina. Com o tempo, os sintomas de Padre João pioram. Ele começa a ter problemas de concentração e comete erros em suas atividades pastorais. Fica irritado com seus paroquianos, com os quais começa a ter conflitos. Certo dia Padre João desmaiou durante uma missa, foi levado ao hospital e recebeu o diagnóstico de que está sofrendo de burnout. Foi aconselhado a tirar um tempo para descansar e cuidar de si mesmo. No início, acreditou que podia continuar trabalhando como antes e que não precisava mudar nada em sua vida. No entanto, com o tempo, percebeu que precisava fazer algumas mudanças para se recuperar completamente. Padre João, de imediato, começou a fazer acompanhamento psiquiátrico e a utilizar os medicamentos prescritos pelo médico. Outra exigência foi submeter-se à terapia, objetivando mudanças profundas e definitivas em si mesmo, de modo a livrar-se tão completamente quanto possível dos males que o afligiam.
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O fato narrado anteriormente é fictício. Porém, ilustra com exatidão o adoecimento psíquico de um grande número de pessoas, dentre as quais presbíteros, religiosos e religiosas. Os males provocados pelo burnout são variados e intensos. A saúde e o bem-estar são profundamente comprometidos, num nível crescente. O observador externo percebe com clareza que a pessoa está diferente. Muitos dos sinais são facilmente perceptíveis. Contudo, mesmo uma síndrome com sinais e sintomas tão intensos pode passar desapercebida da pessoa que padece de tais males. Há muitos e potentes mecanismos que podem tornar a pessoa inconsciente do que está acontecendo em seu comportamento e em seu funcionamento mental. Há ainda a ilusão de ser capaz de recuperar-se sem o uso de medicamentos, e sem a ajuda de profissionais de saúde física e mental.
Para algumas pessoas pode parecer estranha a afirmação de que os sintomas do burnout podem entrar na esfera da inconsciência e da não aceitação. Mas este fenômeno acontece, e talvez seja o maior desafio a ser enfrentado. Para todos os males, se não houver alguma forma de cura completa, há sempre terapias que melhoram consideravelmente a qualidade de vida, reduzindo o sofrimento físico e psíquico. Esforços deverão ser feitos, portanto, para que haja aceitação da fragilidade e do adoecimento, e do percurso terapêutico que for proposto.
Infelizmente, deve-se estar consciente de que não há, até o momento, nenhum tratamento médico efetivo conhecido , o que se explica ao se elencar a variedade de sintomas provocados pela síndrome. Deve-se partir do princípio de que as queixas apresentadas pelas pessoas que recebem semelhante diagnóstico não são ilusórias ou imaginárias, mas são reais, e precisam ser levadas a sério. O tratamento sintomático, portanto, é a abordagem inicial e habitual, e é fundamental. Irá melhorar significativamente a qualidade de vida, criando condições para que a pessoa se submeta a formas mais prolongadas e eficazes de tratamento, que seriam sobretudo as psicoterapias orientadas ao insight. Assim, as dores corpóreas deverão ser tratadas com analgésico, massagens, e tudo o mais que puder ser eficaz, de acordo com as recomendações médicas. A insônia e a depressão deverão ter conveniente tratamento, e assim por diante.
Recorde-se que a síndrome de burnout é um distúrbio emocional, com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultantes de situações de trabalho desgastante . Os principais sinais e sintomas são : cansaço excessivo, físico e mental; dor de cabeça frequente; alterações no apetite; insônia; dificuldade de concentração; sentimentos de fracasso e insegurança; negatividade constante; sentimentos de derrota e desesperança; sentimento de incompetência; alterações repentinas de humor; isolamento; fadiga. Pressão alta. Dores musculares. Problemas gastrointestinais. Alteração nos batimentos cardíacos. Normalmente, esses sintomas surgem de forma leve, mas tendem a piorar com o passar dos dias. Os sintomas físicos e psíquicos, se não tratados tendem a tornar-se mais intensos e invasivos, aumentando o sofrimento físico e psíquico, e incapacitando a pessoa para dar continuidade ao ritmo normal de vida.
Além do tratamento sintomático, recomenda-se uma abordagem psicológica de apoio, que poderá ser individual ou em grupo. O objetivo da terapia de apoio, como afirma o próprio nome, é dar reforço para o restabelecimento das capacidades que foram prejudicadas, em situações nas quais a pessoa se mostre muito fragilizada para seguir um tipo de abordagem mais exigente, autoanalítica e autoexplorativa, denominada terapia de insight. Costumam ser eficazes as terapias em grupo, ou a participação nos comumente chamados “grupos de apoio” que buscam ser empáticos e dar acolhimento aos seus membros, para que se fortaleçam. Nestes casos, costuma ser particularmente terapêutica a criação de laços afetivos e sociais, o acolhimento recíproco, e a solidariedade na dor, resultado do compartilhamento da própria experiência com pessoas que passam por dificuldades semelhantes.
4. A reconstrução das relações interpessoais, das emoções e dos afetos
Dentre os muitos transtornos mentais listados nos compêndios de psiquiatria, a literatura científica atual inclui a síndrome da fadiga crônica, cuja característica principal é a experiência de “fadiga grave por mais de seis meses” (Kaplan 2007, p. 707). Creio que não haja quem não saiba, por experiência, o que seja a fadiga, e o sofrimento por ela causado. Não é fácil imaginar o que significa, internamente, tornar-se alguém em quem a fadiga grave se torna crônica. O estado de exaustão afeta profundamente os recursos emocionais, afetivos e, consequentemente, a capacidade de estabelecer relações interpessoais.
A reconstrução, neste caso específico, é dificultada pelo fato de que os males provocados pela síndrome não se resolvem com o natural remédio, que é o repouso. Não são suficientes e eficazes dias de descanso ou algum período de férias. Como dissemos anteriormente, o sono é gravemente prejudicado e, portanto, não-restaurador. O estado de cansaço agudo irá provocar incômodo e desgaste nos familiares e demais pessoas próximas. Muitos irão se distanciar, e em geral haverá a perda do nutrimento afetivo, cuja fonte são as relações afetivas maduras e saudáveis.
Conforme relatado previamente, o início da reconstrução deverá ser a identificação dos principais sintomas, e o tratamento medicamentoso de cada um deles. Merecem especial atenção as alterações bruscas de humor, a insônia, a irritação e os possíveis sintomas depressivos. Igual atenção deverão receber as dores musculares, que muitas vezes se tornam generalizadas. A terapia por medicamentos, infelizmente, goza de muitas resistências, não sem alguma razão. Deve-se considerar, contudo, que a psicofarmacologia evoluiu sensivelmente nas últimas décadas, conseguindo maior eficácia para reduzir os males, e ao mesmo tempo diminuir os efeitos colaterais. O testemunho das pessoas que fazem uso de medicamentos para insônia, por exemplo, confirma esta constatação. É imediata a melhora na qualidade de vida a partir do momento que se começa a fazer uso da medicação correta. O satisfatório repouso noturno por si mesmo irá trazer significativa melhora nas áreas das emoções e da qualidade das relações interpessoais.
A partir do momento em que a pessoa se mostra apta, é indispensável a busca de caminho psicoterapêutico que ajude a compreender quais fatores conduziram ao burnout . A terapia de apoio, individual e em grupo, bem como o tratamento medicamentoso dos sintomas são fundamentais, mas insuficientes para a recuperação duradoura e permanente . Certamente serão identificados componentes internos, como a insegurança, dificuldade de delegar tarefas, cobrança excessiva sobre si mesmo, baixa resistência à pressão, e externos ou situacionais que levaram ao estabelecimento da síndrome.
Uma contribuição do caminho de autoanálise deverá ser a ampliação da consciência das próprias emoções, e a aquisição de adequada capacidade de manejo e equilíbrio. É indispensável que se consiga perceber as situações em que se está alterado emocionalmente, em que as respostas emocionais são inadequadas, e a consequente capacidade de recuperar o estado de equilíbrio ou normalidade. É o que alguns especialistas chamam de inteligência emocional. Ter consciência do próprio estado emocional quando se está envolvido por alguma emoção, e desenvolver a capacidade de acalmar-se, retornando ao normal estado de equilíbrio .
Os fatores intrapsíquicos que conduzem ao burnout podem ser múltiplos e variados. Há pessoas que se impõem um ritmo frenético de vida por causa de conflitos internos, de diferentes naturezas, na maioria das vezes desconhecidos da própria pessoa, e consequentemente não trabalhados . A psicanálise nos ensina que a conflitividade é característica do normal funcionamento de nossa mente, e que a fronteira entre o funcionamento psíquico normal e o patológico é muito tênue.
Entre os escritores católicos, o Pe. Amedeo Cencini afirma que inevitavelmente se experimenta um período de crise mais ou menos aguda, antes de se atingir a maturidade . De que tipo de crise estamos falando? Pode ser provocada pela exigência do celibato e da vida afetiva, da sedução do poder, do desejo de ser visto e aplaudido, mas também de uma cobrança obsessiva e narcisista de perfeição, e assim por diante . O burnout pode ter como causa, repito, diferentes tipos de conflitos internos, que deverão receber cuidadosa atenção terapêutica.
Há casos em que concorrem para o burnout potentes fatores externos ou situacionais. Pensemos na situação do presbítero que foi formado para exercer o ministério sacerdotal de determinada maneira, objetiva, concreta e definida, durante longos anos de seminário. Lançado num contexto paroquial, percebe que o método aprendido lhe impõe uma quantidade de demandas muito superiores ao que é humanamente possível e realizável. Componentes estruturais, portanto, decorrentes do modo como a Igreja se organiza, e componentes intrapsíquicos, irão exercer forte pressão sobre tal presbítero. Não é diferente a situação em que vivem o seu ministério muitas pessoas de vida consagrada. Presbíteros, consagrados, leigos e leigas estão sendo submetidos, de modo quase generalizado, a uma carga de trabalho que é fonte de sofrimento e adoecimento psíquico.
Outra variável a ser considerada, neste contexto, é o tipo de liderança que é exercida pelos líderes na Igreja, especialmente os bispos diocesanos e os superiores e superioras nas congregações . O líder poderá ter o perfil do bom pastor. Será aquele que identifica a pessoa frágil, com ela se preocupa, e lhe oferece o necessário apoio e suporte. Não poucas são as situações, infelizmente, em que o líder se torna uma dentre as fontes de adoecimento para as pessoas que estão sob sua orientação e cuidado. Nestas situações, é grande a probabilidade de se criar uma estrutura eclesial doente, que irá adoecer e fragilizar os seus membros, sendo o burnout uma das manifestações desta estrutura doentia.
5. Considerações conclusivas
1. Embora a palavra burnout seja relativamente recente, tendo sido criada nos anos 70 do século passado, a realidade de sofrimento que ela coloca em evidência não é recente. Em meados do século XIX foi criado o termo neurastenia, enfatizando a fragilização do sistema nervoso central por consequência de diversos fatores, dentre os quais se encontra a rotina continuada e estressante de trabalho, combinada com fatores genéticos e familiares. O burnout é a versão contemporânea de males antigos, agravada por fatores característicos da cultura atual. No caso específico de presbíteros e consagrados, destaca-se a diminuição do número de vocações e uma estrutura eclesial sempre mais exigente. Em geral, são comuns as situações em que se criam rotinas de exercício do ministério carente de elementos básicos do cuidado de si, como as pausas para descanso, o necessário tempo para práticas esportivas, atividades de lazer, cultivo da espiritualidade, etc.
2. Cansaço é reclamação constante em muitos contextos eclesiais. Presbíteros diocesanos a apresentam como um dos maiores desafios. Os leigos se sentem sobrecarregados com as demandas pessoais e familiares, e os compromissos pastorais nas paróquias. Não é diferente a situação da vida religiosa consagrada. Surpreendentemente, até pessoas de vida contemplativa afirmam que enfrentam situações estressantes de demandas em suas rotinas diárias, o que fragiliza a qualidade do que lhes é específico, que é o cultivo da espiritualidade. Tais queixas não podem ser simplesmente transcuradas, como se fossem descabidas ou fantasiosas. Devem passar pelo processo de escuta e cuidadosa análise, em razão da gravidade dos males que provocam. Quais são as causas estruturais ou eclesiais deste cansaço? O que se pode fazer para que o evangelho seja anunciado, para que as ovelhas recebam o devido cuidado, mas preservando-se a vida e a saúde dos pastores?
3. A literatura disponível sobre o burnout o apresenta como uma síndrome, cuja essência é a fadiga ou exaustão crônica. Um quadro de funcionamento mental como este dificilmente conseguirá uma terapia medicamentosa específica e eficaz, pelo fato de que as causas, os sinais e os sintomas são muito variados. Os casos estudados demostram que a recuperação espontânea raramente acontece. Normalmente a pessoa se engana, acreditando que dispõe de recursos internos suficientes para manter a rotina desestruturante que se impõe, e que os sintomas que começam a se manifestar são apenas passageiros. Nos casos em que se chega a um estado profundo de desorganização emocional e afetiva, a reconstrução demandará grande empenho, e os resultados poderão ser a capacidade de aprender a administração de fragilidades mais ou menos intensas, mas sempre ameaçadoras e permanentes.
4. Quanto ao percurso terapêutico, o ponto de partida, repito, é a identificação dos principais sintomas, a busca de orientação médica e psiquiátrica, e bem possivelmente a utilização de medicamentos para reduzir os males que fragilizam a qualidade de vida e fazem sofrer. Haverá descontrole emocional, incapacidade de manter a rotina de trabalhos e estabelecer relações interpessoais saudáveis, de manter um sono de qualidade e restaurador, sintomas depressivos, etc. Tais sintomas, se forem intensos, irão provocar acentuado sofrimento, e deverão ser tratados inicialmente por meio do uso de medicamentos, prescritos por médicos devidamente experientes e respeitados.
5. O principal recurso para a reconstrução de si, contudo, será submeter-se ao processo psicoterapêutico. Nada há que substitua o nível de conhecimento de si que somente a psicoterapia consegue oferecer. Dentre os objetivos propostos para a psicoterapia deverão estar:
a) Analisar atenta e cuidadosamente a história pessoal, com a atenção voltada para a própria organização mental, com os seus recursos, limitações e fragilidades. O presbítero ou religioso deverá ser capaz de conhecer a si mesmo com uma profundidade tal que lhe permita saber que ritmo de vida é capaz de levar, o quanto é possível exigir de si, sem se fragilizar ou adoecer.
b) Identificar os conflitos subconscientes que concorreram para o adoecimento. Seria um equívoco situar a causa do burnout unicamente em fatores externos ao indivíduo. A pessoa sempre tem a possibilidade de escolher o estilo de vida que deseja viver, seja ele mais ou menos saudável. Todos trazemos conflitos e imaturidades que deverão ser trazidos à consciência e trabalhados, na medida do que é possível.
c) Aprender a administrar as fragilidades que se tornarem permanentes. Pode ser que algumas das limitações, desenvolvidas pelo burnout, se tornem crônicas. Há casos em que não se recupere, por exemplo, a capacidade de trabalhar no ritmo que se trabalhava no período anterior ao adoecimento. O que fazer? Aprender a ser o melhor presbítero ou consagrado que for possível, aceitando-se e integrando em si as fragilidades que se tornaram permanentes. Como disse o apóstolo Paulo, basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder (2Cor. 12, 9). O que se apresenta como um empecilho ao serviço a Deus, poderá mostrar-se como ação da graça e da providência do Senhor, em nosso benefício e da Igreja.
6. O tema aqui tratado nos convida à releitura e reflexão do episódio em que Jesus se encontra com as irmãs de Lázaro, Marta e Maria (Lc 10, 38-42). Esta passagem bíblica nos leva a perceber o quanto é difícil discernir o que é prioritário, e ter a capacidade de escolhê-lo. Marta, muito disponível e dedicada, estava inquieta e ansiosa, buscando cuidar de suas inúmeras tarefas da melhor forma possível. Creio que ela represente iconicamente um grande número de pessoas de nossos dias, às quais o Senhor adverte: tu te inquietas e agitas por muitas coisas; no entanto pouca coisa é necessária, até mesmo uma só (Lc 10, 41-42). Corremos o risco, sacerdotes e consagrados, de nos tornarmos trabalhadores cansados, que não desfrutam da companhia do Senhor.
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